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As fases do luto

Atualizado: Mai 12

Série Luto em meio à pandemia. A Pandemia mudou nossas vidas para muito além do que se pode observar.

Existem aqueles momentos em que a vida pode se mostrar inimiga da realidade que se tem. A perda significativa passa a ser percebida no dia a dia como luto e este se apresenta em diferentes faces e fases.


A vivência deste desafio é muito mais abrangente do que geralmente se pensa em um primeiro momento. Para além daqueles que estão vivendo seus momentos limites, há os que estão lidando com quem está em luto. Solidariedade, estar disponível, ser acessível e atencioso para com os que necessitam é importante. Mas também exige preparo emocional.


Em virtude disso, a Agência ZeroUm encerrando a série reportagens sobre o Luto em Meio à Pandemia, convidou a Psicóloga Raquel de Mello para abordar mais uma face de um tema tão importante e delicado.


Raquel pondera que apesar do entendimento de luto estar diretamente associado à morte, o tema ganha maior abrangência na prática. Citando os estudos de Elisabeth Kübler-Ross, psiquiatra e escritora suíça, discorre que a unidade do que entendemos o luto é a perda. Seja em decorrência da morte, doença, status ou mesmo perda da rotina. No recorte de tempo atual, não é incomum a ocorrência de 2 ou mais fatores simultaneamente.


A Psicóloga ressalta que o luto pode se apresentar como uma avalanche de emoções que devem ser organizadas e precisam tomar novo sentido nas vidas das pessoas afetadas.

A perda faz parte de qualquer processo embora nem sempre saibamos lidar com ela. Entretanto, não devem nos impedir de seguir em frente. Para isso, é importante saber viver cada fase do luto, não negligenciando o sofrimento inerente.


Entendendo as fases do luto:


Primeiro estágio: Negação.


Permeado por uma forte carga emotiva, esta fase inibe a aproximação. É comum observar questionamentos quanto ao que poderia ter sido feito para que o acontecimento fosse evitado. A aceitação parcial começa a surgir neste recorte de tempo.


Neste primeiro momento, 'solidão, tristeza e arrependimento' também podem ser observados. Aliás, a solidão se manifesta quando o indivíduo tende a se afastar, utilizando um mecanismo de defesa, em virtude do medo de perder outras vezes aquilo ou aqueles que considera importante.


A tristeza, por sua vez, é mais comum de ser observada e se manifesta devido à falta do contato com o que se perdeu. Apesar das lembranças, a interrupção é dolorosa. No que diz respeito ao arrependimento, este se manifesta quando surge no indivíduo o questionamento de suas próprias atitudes, sobre o que poderia ter sido feito diferente. Sobre o tempo que julgou ainda ter pela frente para resolver suas questões para com aquela pessoa.


Segundo estágio: Raiva.


Esta etapa está diretamente ligada ao que se sente, não tendo relação para com aqueles com quem compartilha os sentimentos. A raiva deriva de uma sensação de incapacidade de alterar o rumo do acontecimento. É comum neste período que o indivíduo queira 'isentar' aquele que se foi, exaltando suas qualidades.



Terceiro estágio: Negociação/Barganha.


Procurando alternativas para aliviar a dor que sente, surgem questionamentos que buscam alternativas que poderiam ter ajudado a lidar com o problema quando o mesmo ainda ocorria. Observa-se, então, um esgotamento mental e emocional do indivíduo que incessantemente busca no ocorrido alguma oportunidade em que pudesse ter tomado alguma atitude diferente. Em alguns casos, podemos observar que o indivíduo deseja trocar de lugar com aquele que partiu com intuito de preservar a imagem daquele que morreu.



Quarto estágio: Depressão.


Chegamos à fase mais 'falada' porém não melhor conhecida que as outras. Falar de depressão ainda é um tabu social mesmo estando o mundo no século XIX. Há quem trate do tema como falta de gratidão pela vida que se tem. Mas depressão é muito mais do que se pode observar. É preciso entender os mecanismos que levam uma pessoa a este estágio.


Geralmente, o indivíduo pode estar sofrendo em silêncio. Retomando a fase de isolamento com uma postura ainda mais acentuada. A melancolia, desesperança, impotência e culpa percorrem seus pensamentos e interações. O caminho que deveria ser precorrido rumo à aceitação dos fatos regride. O cenário acentuado pode fazer com que a pessoa adoeça. A assistência emocional com suporte profissional é importante neste período e deve ser assumida sem preconceitos.



Quinto estágio: Aceitação.


No último estágio, o indivíduo entende e insere em sua nova realidade os acontecimentos anteriores. Aceitando a realidade como está desenhada, entendendo que é permanente aquilo que já aconteceu.



Cabe ressaltar que todo esse processo tem duração variável. Raquel de Mello observa que o luto pode durar poucos meses ou mesmo cerca de 2 anos em um período ainda tido como saudável, dependendo sempre de como o indivíduo está reagindo.


A Psicóloga frisa que, para aqueles que estão vivendo alguma destas fases, é aconselhável que se busque suporte com quem se sinta confortável de falar do assunto. Por se tratar de um momento delicado, é importante não tomar grandes decisões. Sendo necessário refletir sobre aquilo que precisa ser cuidado. E este cuidado está relacionado à saúde emocional.





Bruno Velasco

Agência ZeroUm