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Os desafios da Criança na quarentena

Atualizado: 26 de Mai de 2020

Em virtude das grandes mudanças introduzidas a partir do combate ao novo coronavírus, crianças estão tendo de se adaptar à nova dinâmica.


O tempo de correr ao sol, nos parquinhos, no colégio e entre amigos foi substituído pela reclusão possível em suas casas. Estas se transformaram no ambiente do todo que a maioria das crianças pode perceber. Uma geração nascida conectada à tecnologia por lazer se vê obrigada a migrar para o online inclusive para estudar.


A nova realidade de grande incerteza que se observa pode acentuar algum comportamento da criança. Ansiedade, irritação, raiva, choro, medo, vontade de dormir com os pais ou responsáveis são alguns dos mais observados.

A Agência ZeroUm entrevistou Imira Fonseca, Doutora em Psicologia pela UFRJ para entender o cenário, auxiliando também os pais na compreensão do contexto:


Em linhas gerais, crianças têm apresentado algum tipo de comportamento diferente durante a quarentena?


Depende do que está sendo considerado como diferente. Vivemos um momento de grandes incertezas, medo, estresse. Então, ainda que crianças apresentem comportamentos diferentes do seu jeito de ser habitual, provavelmente são comportamentos condizentes com o que se pode esperar de crianças na situação em que vivemos.


De forma geral, as crianças tendem a acentuar seus comportamentos. Em função do medo de contaminação ou da perda de um ente querido, a criança ansiosa pode apresentar mais comportamentos de ansiedade e medo, podem ficar mais chorosas, pedir para dormir com os responsáveis. Outras crianças podem ficar mais irritadas, uma vez que em crianças é muito comum que o medo apareça, muitas vezes, associado a comportamentos que externalizam raiva.


O confinamento pode gerar também mais agitação entre as crianças. Não tendo onde esgotar sua energia, elas podem requisitar mais momentos de brincadeiras, ficarem mais inquietas, com dificuldade de permanecer na mesma atividade por muito tempo, por exemplo.


Tem sido comum a 'regressão' a estágios iniciais, como voltar a ter medo de dormirem sozinhas, voltar a urinar na cama, entre outras coisas?


"É importante a gente entender o que a pandemia pode gerar em nossas vidas, para entender o comportamento das crianças".

Bom, dentre as emoções básicas, existe o medo. O medo é ativado sempre que há um perigo detectado pelo corpo. O perigo pode ser real ou imaginário. Vivemos uma situação de perigo real. Há um vírus que provoca toda essa mudança em nossas vidas. Então, é mais aceitável que estejamos com o medo ativado por mais tempo durante esse momento. Em função dessa emoção, alguns comportamentos podem ser ativados. Dormir com os responsáveis é um deles. A sensação de segurança advinda desse comportamento é bem grande e pode ajudar muito, desde que todos estejam de acordo.


A enurese, ou xixi na cama, acontece quando altos níveis de ansiedade estão sendo vivenciados pela criança. Caso esse tipo de comportamento apareça é importante muito diálogo e acolhimento dos responsáveis, pois a criança pode estar vivenciando grande sofrimento. Ainda não temos dados sobre uma grande população infantil, mas, entre os meus pacientes, por exemplo, a enurese não tem sido comum.


Qual o impacto da mudança de hábitos da quarentena para crianças?


Muito grande, na maioria dos casos. Durante a infância, a previsibilidade é um fator de extremo auxílio. Saber o que vai acontecer ajuda a criança a se planejar, a se organizar tanto cognitivamente quanto emocionalmente. Dessa forma, a quebra de rotina pode deixar a criança confusa.


Um dos principais problemas nessa quarentena são as aulas online. E quanto mais nova a criança, pior. Primeiro, a falta do ambiente escolar, adaptado para proporcionar melhores condições de aprendizagem, é um grande complicador. Em casa, brinquedos, videogames, televisão são grandes distratores.


Segundo, o formato das aulas é diferente. A interação de sala de aula não consegue ser reproduzida nos ambientes online. Assim, as crianças não conseguem focar a atenção tanto quanto necessário. Os responsáveis também não são professores. Podem ter muita boa vontade, mas não tem didática. E também tem muito trabalho. Então, muda todo o processo de aprendizagem.


Além disso, os outros hábitos modificados, como a perda de atividades prazerosas, geram muito estresse e podem afetar muito a conexão com os pais. Tenho alguns pacientes que já tentaram de tudo para passar tempo durante a quarentena e, agora, com dois meses já não conseguem adiar o sofrimento. O sono pode ser afetado também, seja pelo excesso de energia ou ansiedade.


Entender, preservar e oferecer o cuidado às crianças nesse momento é extremamente importante. Nós, adultos, temos de ajudar as crianças a se expressarem. E assim entendermos o momento delas. Não há como medir em escala o grau do impacto sobre adultos e crianças. A realidade com a qual todos estávamos acostumados mudou. E não se trata de um 'presente' estarmos em casa neste momento. É questão de necessidade e proteção.


A Agência ZeroUm, prestando este serviço aos Pais, deseja que todos consigam na - melhor maneira possível - viver bem este tempo de quarentena e isolamento social.




Bruno Velasco

Agência ZeroUm