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Instagram, o novo futebol em um país sem esperança

Sinônimo de ascensão agora é viralizar, todos os dias, de post em post.

Instagram, um novo sonho de fama e dinheiro.
Instagram, um novo sonho de fama e dinheiro.

Durante muito tempo, o futebol reinou no imaginário de muitos meninos e meninas que desejam dias melhores, refeições completas e noites de sono dignas. Hoje, porém, no Brasil em que mais da metade da população vive no limite entre se entender classe A ou B apesar da realidade ser C, dentro de um contexto em que 68 milhões de brasileiros necessita de auxílios e políticas públicas para não passar fome, o futebol que exige muitos sacrifícios para além da qualidade perde espaço para um novo eldorado: Instagram, viver de moda, de likes, de sorrisos e viralizar.


A falta de oportunidades está traduzida em forma de desemprego. A ociosidade como oportunidade criativa instiga. Um smartphone na mão, um aplicativo grátis e muitos seguidores depois a fama pode acontecer apesar do pouco reconhecimento como 'status social'. Figuras simplórias se tornam públicas, figuras com a necessidade de intimidades expostas, da fragilidade causada e nada casual. Da companhia forçada, do compartilhamento necessário. Da exposição gratuita sem certeza de retorno.


Eis que assim se formam, todos os dias, semanas, dezenas e dezenas de stories como que de uma indústria cultural que produz o que se questiona ser cultura, hábitos ou mesmo produtos para serem consumidos. São celebridades do instante, da imagem, realizando o desejo de ter fama, desperdiçando oportunidade de almejarem e conquistarem algo mais. Que sejam felizes. Mas que antes nos distraiam de nós mesmos.


Aliás, é importante ressaltar que existem aqueles que enveredam pelo dom. Que enviesam pelos caminhos e criam seus próprios rumos. Nos divertem, divergem, se posicionam. Angariam esforços, buscam entendimento. Abraçam causas. Levantam bandeiras, rompem com símbolos e criam marcos. O antes e o depois se percebe com suas atitudes, com a resultante de suas ações, com seus posts reverenciando à exaustão. Notoriedade.


Entre prós e contras, na indústria do existir, ser ou parecer pode fazer pouca diferença. O 'novo futebol' exige perneiras menos refinadas, mais possíveis, e continua a vender o sonho que como país não conseguimos construir, proporcionar. É preciso repensar toda ordem do processo e da estrutura educacional no país, que opções não sejam apenas refúgios. Que vocações possam existir e permitir as escolhas que, por hora, ainda não temos.



Bruno Velasco

Agência ZeroUm