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A Cultura da discriminação

Atualizado: 30 de Jul de 2020

Os limites da liberdade quando é a cor que agride aos olhos.

Em um Brasil mergulhado em si mesmo, remoendo problemas que 'encontrou' e os que não soube gerir, observa-se que os sintomas não são capazes de revelar as causas das crises que ainda vivemos.


Embora Floyd possa ter sido o mais emblemático nos últimos anos, todos os dias em nossas periferias cenas semelhantes se repetem, se acumulam e forçam a existência de uma normalidade irreal.


É preciso coragem. Não deve ser assumido como normal um estado de violência institucionalizado e arraigado. Muito menos deve-se aceitar que seja seletiva, estratificada ou regionalizada. Aquilo que agride a sociedade, seja onde e quando for, deve ser entendido como um problema do todo, da vida social, do comum. Assim, surgia a política que era voltada ao cuidado da pólis, lugar e espaço de convivência do povo.


Por sua vez, dentro dos direitos inerentes ao cidadão está a liberdade . Esta é constitucionalmente 'garantida' e pressupõe uma série de direitos adquiridos que devem ser garantidos pelo Estado:


"Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País, a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade"

Apesar disso, a violência em diversas formas de abordagem segue ocorrendo de forma seletiva. É preciso lançar luz sobre como as instituições e a sociedade lidam com a questão da liberdade e da igualdade. Para melhor aprofundarmos a questão, a Agência ZeroUm convidou a Jornalista Kelly Ribeiro.


"Temos uma democracia relativamente nova e pouco se aprende sobre nossa própria história, então, a tendência é que repitamos erros que já deveriam ter sido aprendidos".

Em um estado democrático, a igualdade - seja de oportunidade, direitos e deveres - deve ser garantida pelo Estado independente de credo, raça, cor, gênero, orientação política ou religião. Contudo, no recorte brasileiro, a questão racial ainda é forte. Embora possa ser percebida longe do alcance dos olhos daqueles que não vivem esta realidade, desde cedo, pessoas negras tem suas confianças minadas pelo racismo de forma estruturalizada. Um processo lento que busca legitimar no inconsciente coletivo práticas desiguais, muitas delas que por sinal configuram crime.


"É doloroso perceber o quão cruel o mundo pode ser com você apenas pela cor da sua pele".

Kelly Ribeiro, jornalista.
Kelly Ribeiro, jornalista.

Infelizmente, o racismo existe e a sociedade civil organizada precisa reagir. São muitos os vieses e abordagens possíveis. Kelly ressalta que dentre estas "a valorização das nossas características é um bom ponto de partida para explicar essas complexidades. Precisamos reforçar com nossas crianças o quanto elas são bonitas, capazes e fortes".


As diferenças existentes podem ser identificadas na falta de representatividade nos âmbitos da vida social. Estas têm origens no desequilíbrio de oportunidades devido à dificuldade do acesso à educação de qualidade. Entretanto, mesmo para aqueles que conseguem romper esta barreira, é possível notar a existência de profissionais qualificados que estão sistematicamente ausentes em cargos de chefia.


Em outros campos da vida social, podemos observar discrepâncias a serem analisadas com cuidado. No que diz respeito ao mercado, por exemplo, é preciso que exista uma representatividade que afaste o esteriótipo, seja em novelas, filmes, seriados ou em anúncios. Dentro do viés do consumo, são mais de 19 milhões de vidas negligenciadas, de consumidores 'invisíveis' dentro do processo da indústria cultural.


É preciso, com rigor, que seja desconstruída as estruturas que segmentam. A sociedade - em todos os seus espaços - precisa conseguir dialogar com os diferentes para que todos possam usufruir a igualdade como cidadão.



Bruno Velasco

Agência ZeroUm