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O exemplo que pode dizer o contrário

A Fórmula 1 enfim se posiciona contra o racismo mas o fato de seis dos vinte pilotos não se ajoelharem repercute.

Vivemos em um tempo em que a linguagem não é apenas verbal, textual. O corpo para além da fisionomia produz mensagens que podemos observar. Mas será que estamos entendendo da forma correta?


A Fórmula Um demorou a adotar um posicionamento frente ao levante de manifestações contra o racismo. O acontecimento que deflagrou a nova onda de protestos ocorreu em 25 de maior de 2020, quando George Floyd foi assassinado, exatos 42 dias antes da corrida que dava início à temporada. Entretanto, ocorreu somente após cobranças públicas de seu maior campeão em atividade, o inglês Lewis Hamilton, a entidade tomou seu assento e definiu sua posição. Contudo, 6 dos 20 pilotos vestiram as camisas com frases antirracismo mas não se ajoelharam como os demais.



A segregação no espaço


O assassinato de Floyd está sendo questionado sobretudo em razão da força empregada na ação, desproporcional para um homem desarmado. Não se coloca em questionamento se de fato era culpado ou não pelo delito do qual foi acusado. O que se questiona o trato dispensado em uma situação que estava longe de se parecer uma situação limite.


Entretanto, para aqueles que vivem na periferia das grandes cidades ao redor do mundo, a imagem não refletia novidade. Ainda que choque alguns, a violência sofrida por tanto tempo tornou-se legitimada. Institucionalizada, reforçando a segregação estrutural na sociedade. Aquela que se sabe, se sente mas da qual não se fala. E, costumeiramente, se nega a existência.


Em um contexto mais amplo, a relação de impacto da ação que resultou com a morte de um homem imobilizado pode ter relação com o símbolo de igualdade e prosperidade que é os Estados Unidos da América. País tido como sinônimo de liberdade, de oportunidades e direitos tem um passado e um presente que podem comprometer o futuro da igualdade racial. A imagem de um 'sonho americano com um futuro melhor', para muitos, ficou arranhada.



Um passado que reivindica voz presente na construção do futuro


A morte de Floyd desencadeou uma série de manifestações ao redor do mundo. Em Bristol, Inglaterra, a estátua do traficante de escravos Edward Colston foi arrancada de seu local e arrastada por manifestantes. Monumentos a Cristóvão Colombo também sofreram com manifestações de repúdio ao passado que significa. Neste ínterim, EUA, França, Espanha, Bélgica e Inglaterra se viram em meio a um questionamento sem precedentes. Tamanha pressão surtiu efeito, Governantes ao redor do mundo anteciparam-se e tomaram decisões de remoção de monumentos.


Retornando à América, desta vez, astros do basquete não se calaram. Nos últimos 30 anos, talvez, nenhum outro acontecimento tenha alcançado a capacidade de acordar a consciência coletiva com engajamento de forma semelhante. É importante ressaltar que fatos ainda mais violentos ocorreram mas atletas emblemáticos adotaram o silêncio.


É importante frisar que existe uma opressão velada que deseja silenciar este tipo de posicionamento. E muito provavelmente o passado sucumbiu a estas forças que hoje já não são capazes de anular o movimento como antes. Ou ainda não por enquanto. Na NFL, em um passado recente, houve muito questionamento. Mas gradativamente, o movimento perdeu força. Porém, Colin Kaepernick, então quarterback do San Francisco 49ers (2011-16), resistiu e seguiu protestando contra o racismo e a violência nos Estados Unidos. Seu protesto ficou marcado ao se ajoelhar durante o hino nacional no início dos jogos da liga. A atitude durante a execução do hino, símbolo de estado e cidadania, é capaz de levantar questionamentos sobre como a população afro-americana é vista e tratada como não-cidadãos.



O posicionamento das marcas e patrocinadores


Há quem diga que o silêncio de antes era reflexo do medo em perder apoio financeiro para seus projetos. Nos dias de hoje, o movimento parece ser contrário e estar associado à posição político-institucional adequada no que diz respeito ao social. Um exemplo deste novo posicionamento é o caso em que o uma empresa do ramo de academias perdeu patrocinador após CEO proferir declaração considerada inadequada no contexto do combate ao racismo.


Em 2020, marcas rivais se uniram e reivindicaram lugar de fala, reforçando o manifesto. Historicamente, a Nike tem assumido papel significativo dentro do social.


“Ao menos uma vez, não faça. Não finja que não é um problema nos EUA. Não vire as costas para o racismo. Não aceite que vidas inocentes sejam tiradas de nós. Não dê mais desculpas. Não pense que isso não afeta você. Não se sente e fique calado. Não pense que você não pode ser parte da mudança. Sejamos todos parte da mudança”, diz a mensagem no vídeo.

E somente após abrirmos este diálogo com alguns acontecimentos é que retomamos o questionamento do início da matéria. O que aquelas posturas diferenciadas em um momento em que se aguardava uma posição unificada quis realmente dizer ao mundo? Quais as outras mensagens dentro do contexto? Seria o melhor momento para discordar? Como reagirão os patrocinadores? O tempo irá dizer.


Nas entrelinhas, fica uma crítica ao fato de que 'o corpo fala' e algumas atitudes que tomamos em nosso dia a dia não serão capazes de desdizer o que mostramos espontaneamente aos quatro cantos do mundo.


#DigaNãoAoRacismo



Bruno Velasco

Agência ZeroUm