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Jornalismo para além do óbvio

A notícia jornalística como parte da democracia no Brasil.

Jornais: diversidade ou seletividade? | Foto by Wix.
Jornais: diversidade ou seletividade? | Wix.

Noticiar e opinar cada vez mais se confunde nas multiplataformas dos tempos de hoje. Entre jornalistas e não-jornalistas a volatilidade da informação é crescente com os inúmeros interlocutores presentes, e se esvai ao mesmo tempo em que a propaganda se mistura de modo indevido, um despropósito com fortes indícios de intenção que fere a ética. Esta não perdeu sua relevância, apesar de inobservada por alguns, o que determina sua existência foge dos controles de quem a ignora.


Chegamos ao século XXI em que tudo ou quase tudo ganha liquidez com notável velocidade. Ganha vulto ou se desfaz. O que se apresenta tem de ser de fácil consumo, propagação ou corre risco de não prender a atenção de um público ávido por consumir rápido. Consumidores de conteúdo com a falsa sensação de conhecimento que a falta de profundidade proporciona.


A atenção, agora, 'difusa' obriga propagandas a se adaptam ao tempo de 5 segundos antes do 'pular este vídeo'. Com mesmo baixo grau de necessidade de atenção, o consumo da informação sequer perpassa pelos leads, e fica preso ao 'plano raso das manchetes'. É importante frisar que o sensacionalismo lança luz sobre as manchetes que possuem muito pouca relação ou nem sempre são confirmadas com o conteúdo que trazem consigo. A informação que muitos querem parece estar voltada a desinformar.


O papel social do jornalismo padece. Sua função deveria ser, sempre afastada das emoções, o de interpretar, traduzir informações de modo a facilitar o entendimento do público, estando imune à 'publicidade de intenções' em formato de matéria jornalística. Neste contexto, a Agência ZeroUm convidou Kelly Ribeiro, jornalista, para abordar o papel do jornalismo, a construção da notícia e como ela lida com os diversos fatores inerentes à profissão:


"Lido tentando ser o mais imparcial possível. Como profissional, sabemos que essa imparcialidade é uma busca e, quando não se trata de jornalismo independente, estamos sujeito a uma linha editorial".

Kelly ressalta que é de suma importância que os grandes veículos de comunicação tenham noção da responsabilidade que é informar com qualidade. Não é uma atividade fácil, rápida. Mesmo assim, os impactos que o jornalismo tem na vida das pessoas pode ser profundo e mudar o curso de algum acontecimento na história.


"É preciso estar muito ciente desse poder que as narrativas concentram".

De uma lado, a população consumidora de notícias não sabe dos pormenores que envolvem toda a produção da imprensa. Mas podem e devem cobrar que exista liberdade para esses profissionais para que assim seja possível viver em um Estado que respeita a democracia. Do outro estão as empresas de comunicação, estas também devem selar compromisso de transparência com seu público.


No viés jornalístico, é importante que fique claro as condições em que determinada informação será veiculada. Isso para não ferir a isonomia, descumprindo o papel de informar. Em um estado democrático e livre, as diferença entre as abordagens deve estar clara. Qualquer posicionamento diferente deste é orientar em vez de informar. E Informar é trazer de forma objetiva algum relato, fato ocorrido. A crítica, por sua vez, está relacionada à criação de juízo de valor em cima de uma informação, podendo ser positiva ou não. Enquanto o questionamento traz uma análise para entender os motivos de determinada informação, acontecimento. Todos dentro do limite da liberdade de informar.


O que fere a liberdade de expressão está posto quando há envolvimento de algum tipo de agressão, desrespeito, calúnia ou difamação. Seja física, por escrito ou psicológica. Esta ruptura direciona para o outro algum tipo de violência. Ela atribui valores distorcidos em vez de noticiar os fatos como são. E neste aspecto, os próprios jornalistas acabaram se tornando alvos.


Uma vez que o jornalismo não está destinado a nos contar a história que desejamos ouvir, embates são inevitáveis. As formas como ocorrem estes conflitos são diversos e complexos. Nas redes sociais e em grupos de mensagens é comum que se receba conteúdos mais ofensivos. A exposição pode ser maior pela dificuldade de se rastrear a origem dos disparos. Entretanto, no dia a dia, a situação pode ser um pouco diferente. Kelly relata a realidade que percebe em sua volta:


"Já sofri discriminação. Por se tratar de uma profissão que vem sendo cada vez mais desacreditada. Já passei por situações em que senti que havia um deboche em relação a essa escolha".

Apesar de manifestações veladas serem pontuais, cabe ressaltar que "é sintomático de um povo que não valoriza seus jornalistas" e não tem noção de como essa profissão pode impactar no dia dia de diferentes formas. A jornalista frisa que é "preciso ressignificar esse trabalho e dignificá-lo novamente". Momentos críticos como esse atual em que há uma pandemia servem de exemplo. Há necessidade de bons profissionais em veículos interessados a informar. É inegociável a independência e a garantia de condições de trabalho livres de qualquer conflito ou interesse. O bem maior deve continuar sendo noticiar, de modo isento, traduzindo a realidade dos fatos sempre que necessário, para o bem estar de uma população. Embora a 'gourmetização' o entenda como produto, jornalismo é serviço.




Bruno Velasco

Agência ZeroUm